Schopenhauer by Jair Barboza

Schopenhauer by Jair Barboza

Author:Jair Barboza
Language: eng
Format: epub
Publisher: Zahar


Metafísica da ética

Compaixão. À luz do pensamento de Schopenhauer, uma filosofia que considere o mundo apenas do ponto de vista físico não proporciona satisfação metafísica alguma. Essa somente pode ser encontrada do lado ético, já que aqui “o núcleo de nosso interior se abre à consideração”. Assim, uma dimensão ética tem de ser pensada como estando no fundamento da ordem física do mundo.

Não diferentemente das éticas anteriores, a de Schopenhauer investiga a base de toda ação moralmente boa. Porém tem por alvo não a prescrição de boas ações, mas simplesmente a intelecção do conteúdo do fato ético, que para ele é o restabelecimento, e depois negação, da unidade originária do querer, antes já restabelecida, e negada, na contemplação do belo. Ora, como a Vontade é, em si mesma, livre, uma ética prescritiva é tão pouco eficaz quanto uma estética normativa. A primeira não forma o homem bom, como a segunda não forma o gênio. Segue-se daí que a ética schopenhaueriana, diferentemente das anteriores, é meramente descritiva. Ela investiga o solo da boa ação, sem a ensinar.

Antes de chegar ao centro propriamente dito de sua ética — em verdade ao centro de toda a sua filosofia —, Schopenhauer faz uma transição entre a estética e ele pela compaixão. Por esta parece referir um grau de negação da Vontade maior que no belo. De fato, em seu pensamento, a compaixão significa o desaparecimento da diferença entre eu e não-eu, entre alguém e outrem que sofre. O indivíduo não se enclausura em si, não exige que o mundo gire ao seu redor, mas, impulsionado pela visão do sofrimento alheio, age para lhe ajudar, neutralizando assim, em si, o egoísmo essencial a toda criatura, resultado de todos serem uma única e mesma Vontade, sedenta por vida e que, nessa sede cega, desconhece a si mesma como una na caça e no caçador, no carrasco e na vítima. Em função desse egoísmo, e dos males por ele engendrados, o mundo se assemelha mais a uma criação do diabo que de Deus. Dessa perspectiva, diante dos tormentos da existência, é de mau gosto o otimismo. Schopenhauer afirma:

Se fossem trazidos aos olhos de uma pessoa as dores e tormentos aos quais a sua vida está continuamente exposta, então o aspecto cruel desta a assaltaria. Se se conduzisse o obstinado otimista através dos hospitais, enfermarias, mesas cirúrgicas, prisões, câmaras de tortura e senzalas, pelos campos de batalha e praças de execução, e depois lhe abríssemos todas as moradas sombrias onde a miséria se esconde do olhar frio do curioso; se, ao fim, lhe fosse permitida uma mirada na torre da fome de Ugolino, então ele certamente também veria de que tipo é este meilleur des mondes possibles, melhor dos mundos possíveis.

Em um mundo egoísta e semelhante a um inferno, é de fato milagroso o sentimento de compaixão, que faz o eu se perder no não-eu, para ajudá-lo. A compaixão quer o bem alheio, e chega à nobreza de caráter e à bondade. Esse impulso é uma das três



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